Mito ou verdade: 8 crenças sobre economizar no mercado
Ir com fome, embalagem família, marca própria, atacarejo, lista: o que a pesquisa e a lei dizem sobre cada uma das crenças mais repetidas sobre economizar no mercado.
· 9 min de leitura
Economizar no mercado tem muita regra que passa de boca em boca. Algumas têm estudo por trás, outras não. Fomos atrás de cada uma.
“Ir ao mercado com fome faz gastar mais”
Verdade
Um estudo publicado na PNAS em 2015 mostrou que a fome aumenta a vontade de comprar até o que não é comida. No teste de campo, numa loja de departamentos, quem saiu com fome gastou 64% a mais (USC).
Um aviso: o estudo mais citado sobre fome e supermercado, de 2013, foi retratado pela revista em 2018, junto com outros do mesmo autor. Se você ler sobre ele por aí, desconfie.
“Embalagem maior é sempre mais barata”
Mito
Nem sempre. Um sabão em pó de 1 kg a R$ 5,50 sai a R$ 5,50 o quilo; o de 2 kg a R$ 13,00 sai a R$ 6,50 o quilo. A única forma de saber é comparar o preço por quilo ou por litro, e a lei ajuda: o mercado precisa mostrar esse preço na etiqueta dos produtos fracionados (Lei 10.962/2004, art. 2º-A), e saber o preço por unidade de medida é direito básico do consumidor (CDC, art. 6º, XIII).
Calculadora
Qual embalagem compensa?
Embalagem 1
R$ 17,80 o kg/L
Esta sai mais em conta
Embalagem 2
R$ 19,90 o kg/L
Diferença de R$ 2,10 por kg ou litro.
“Se o pacote encolheu, a marca tem que avisar”
Verdade
Pela Portaria nº 392/2021 do Ministério da Justiça, quando a quantidade diminui o rótulo tem que dizer que houve redução, quanto era, quanto ficou e a diferença em número e em porcentagem, em letra maiúscula e destacada, por pelo menos seis meses. Há uma brecha criticada pelo Idec: sem espaço na embalagem, basta avisar que a quantidade mudou. Por isso, de novo, o preço por quilo na etiqueta é o seu melhor amigo.
“Marca própria do mercado é mais barata”
Depende
Em geral, sim, mas a diferença varia muito. Em 2021, a associação do setor (Abmapro) falava em cerca de 20% a menos na média, e só uns 5% em itens como arroz e feijão (TradeMap). O brasileiro está experimentando mais: segundo a NIQ, as vendas de marca própria cresceram 10,9% em volume no ano até junho de 2026 (Mercado & Consumo). Vale testar item por item: em limpeza e mercearia a troca costuma passar despercebida; em café ou sabão, a casa nota.
“Atacarejo sempre compensa”
Depende
O atacarejo já é 29% de todo o varejo alimentar do país (Ranking Abras 2026), e é feito pra compra de abastecimento, em volume. Compensa nos itens que a casa gasta muito e que não estragam. Pra uma casa pequena, levar o fardo de 12 do que só acaba em três meses é dinheiro parado na despensa (ou no lixo, se vencer). E nem tudo é mais barato lá: compare o preço por quilo com o do mercado do bairro.
“O mais caro fica na altura dos olhos”
Depende
O que a pesquisa mostra é que a prateleira do meio chama mais atenção: num estudo com rastreamento do olhar, mais gente notava o produto ali, mas isso não mudava a opinião sobre ele (Chandon e outros, 2009). Não achamos estudo que prove que o mais caro está sempre no meio. Mesmo assim, olhar em cima e embaixo antes de pegar custa dois segundos.
“Com lista de compras você gasta menos”
Depende
A pesquisa é dividida. Um estudo de 1993 achou gasto médio menor em quem leva lista escrita (Thomas e Garland). Outro, com 4.200 consumidores nos EUA, achou praticamente a mesma taxa de compra não planejada com e sem lista: 58,4% contra 58,6% (Inman e outros).
O que explica: lista só com nomes soltos ajuda pouco. A que funciona tem quantidade, segue a ordem do mercado e vem com um teto. Montamos um modelo assim.
“Uma compra grande por mês sai mais barato que várias pequenas”
Depende
É o que muita gente está fazendo: em 2026 as famílias estão indo menos ao mercado e levando mais por ida (Worldpanel). Funciona pro que dura. Pro que estraga, a compra grande vira desperdício, e as idas “só pra pegar o pão” sem lista viram o furo do orçamento. O meio-termo: compra do mês pro que dura, reposição curta da semana pro fresco.
Pra levar daqui
- 1Coma antes de ir.
- 2Compare o preço por quilo ou litro, não o preço do pacote.
- 3Teste a marca própria item por item.
- 4Atacarejo pro que a casa gasta muito e não estraga.
- 5Lista com quantidade e teto, não só nomes.
Fontes consultadas
- Xu, Schwarz e Wyer (2015), Hunger promotes acquisition of nonfood objects, PNAS 112(9)
- USC Dornsife: o estudo de campo da fome na loja de departamentos
- Lei 10.962/2004, art. 2º-A (preço por unidade de medida)
- Código de Defesa do Consumidor, art. 6º, XIII
- Portaria MJSP nº 392/2021 (redução de quantidade nas embalagens)
- Idec: reduflação, o que diz a regra
- Mercado & Consumo: marcas próprias, dados NIQ (ago/2026)
- TradeMap: Abmapro sobre preço das marcas próprias (2021)
- Central do Varejo: Ranking Abras 2026
- Chandon e outros (2009), Journal of Marketing 73(6): atenção e posição na gôndola
- Thomas e Garland (1993), listas de compras e gasto, IJRDM 21(2)
- Inman, Ferraro e Winer (2004), compras não planejadas
- Mercado & Consumo: Worldpanel by Numerator, Consumer Insights 2026